O Pé

O Pé
Tudo que pisamos, nos apoia.

12 de out de 2009

O ALIENISTA

As crônicas da cidade do Rio de Janeiro, revelam que no ano de 2009, morava no bairro do subúrbio carioca, Lins de Vasconcelos, bem ao lado do bicentenário bairro do Méier, um médico conceituado no mundo todo, Simon Le Bon, que um dia resolveu resolver os problemas da sua vizinhança.
Em 2010, ele recebeu um Nobel de medicina por suas descobertas no tratamento de pessoas que tinham Transtorno Consciente Horizontal (uma doença que elevava as taxas de endorfina e que causavam prazer em ser indiferente a realidade).
Em voga na época, a discussão do politicamente correto permeava as conversas dos bares, que ficavam ao redor da agremiação de samba Lins Imperial.
Naquele tempo a escola estava no grupo de acesso do desfile carnavalesco, situação bem diferente da atual que ostenta 20 títulos do primeiro grupo do carnaval carioca.
A normalidade e a civilidade naquele tempo, era uma via tortuosa de egoísmo.
Cada um apenas olhava para seu próprio umbigo, tentando solucionar seus problemas imediatos.
O médico Simon Le Bon, morava num antigo casarão que havia pertencido a um bicheiro patrono da agremiação boêmia da localidade.
Estava cansado das atitudes insanas da sua vizinhança.
O lixeiro passava 3 dias na semana. Toda segunda, quarta e sexta.
No entanto, por alguma razão que ele desconhecia, o lixo era colocado em sua porta todos os dias.
O acúmulo de detritos atraia ratos, baratas, porcos, cachorros e cavalos.
Doutor Simon precisava estudar as pessoas para entender porque jogavam lixo na sua porta, não reciclavam e muito separavam os dejetos orgânicos dos outros materiais.
Anos antes, numa atitude impulsiva, Simon Le Bon transformou o velho casarão numa clínica de repouso e internação para perturbados e atormentados.
Aceitava todo tipo de pessoa no seu setor de internação.
Alguns conseguiam se curar de seus transtornos.
Outros não.
Os benefícios e curas interiores que ele estava proporcionando a seus pacientes ele queria trazer para a vizinhança onde morava.
Passou a todo dia monitorava as pessoas que passavam a sua porta, jogando lixo ou não.
Realizava um estudo comportamental.
Na sua mente passava que com a proximidade da Copa do Mundo de 2014 das Olimpíadas de 2016, tinha que atuar de maneira mais incisiva para melhora seu bairro.
Numa terça-feira, um senhor de uns 55 anos saiu de uma vila próxima, carregando uma sacola de supermercado amarrada com nó cego. Eram umas 10 horas da manhã.
Le Bon colocou sua prancheta de lado e com os olhos seguia o senhor.
Ele se aproximou do poste em frente ao casarão e largou discretamente a sacola.
Simon interpelou o idoso:
- Você sabe que o lixeiro só recolherá o lixo amanhã...
- Eu sei, retrucou o velho.
- Mas esta sua atitude e de outros aqui da vizinhança esta deixando imunda a porta da minha clínica...
- Eu sei, falou o velho com indiferença.
- Se você tem consciência que está fazendo uma coisa e faz deliberadamente, você precisa de uma ajuda para poder se ajustar a sociedade.
E numa ação rápida chamou os enfermeiros e levou o velho para dentro da clínica.
Como o velho era sozinho, não tinha família, ninguém protestou.
Até acharam legal alguém se preocupar com a saúde do aposentado.
Diante do sucesso da sua primeira internação na vizinhança, Le Bon percebeu que sua vida mudaria, se o bairro também mudasse.
Começou a internar os mendigos que reviravam o lixo diante do velho casarão.
Uma senhora veio reclamar com ele dos seus atos.
Sem pestanejar, ele a internou também.
Com uma senhorinha, não qualificada, sem mestrado ou doutorado, uma simples dona de casa poderia questionar o magnifico Simon Le Bon.
A vizinhança entrou em polvorosa quando se espalhou a internação da dona de casa.
Rapidamente o presidente da associação de moradores foi a clínica questionar o ato:
- Doutor, porque você fez isto com dona Fulaninha?
- Ele está com sérias perturbações...
- O senhor está exagerando. Como presidente da associaa...
E antes que terminasse a frase o presidente foi carregado pelos enfermeiros para um cela acolchoada para repensar sua vida.
O terror estava se alastrando pelo bairro.
Um incauto transeunte passando pela frente da clínica, pediu informação para o doutor sobre qual o nome da rua.
Le Bon gritou:
- Perda de memória!!!
E encarcerou o homem.
A esta altura o lixo se acumulava na frente da clínica.
Os garis se recusavam a limpar a calçada ou a parar o caminhão lá, desde que um colega foi arrastado pelos enfermeiros porque simplesmente assoviava uma canção e sorria para as pessoas.
O doutor o diagnosticou como louco varrido, pois não podia entender como um gari poderia ser feliz limpando as ruas.
A Secretária de Saúde foi chamada para tentar conter o doutor.
O fiscal bateu no portão.
Quando foi aberto, foi arrastado violentamente para dentro.
Le Bon percebeu um transtorno compulsivo nas batidas do fiscal no portão.
As casa vizinhas a clínica estavam vazias.
Ninguém mais transitava pelas ruas perto da clínica.
Enquanto isto, doutor Simon publicava seus estudos e progressos em revistas médicas no exterior.
A paz só chegava ao bairro quando ele viajava para a Europa ou EUA para divulgar sua pesquisa.
Cientistas do mundo inteiro aclamavam o trabalho do tupiniquim médico.
Numa destas viagens, comerciantes e poucos vizinhos que restaram no bairro, se reuniram para planejarem como se livrariam da ameaça de serem internados também.
Ou por espirrarem ou simplesmente piscarem por causa de um cisco no olho.
Deviam confrontar as teorias médicas fantasiosas com a realidade.
Ninguém conseguia ter um idéia brilhante.
O Poder Público apoiava as iniciativas de Le Bon.
De repente, alguém se levantou e gritou:
- Já sei como nos livrarmos do médico-monstro!
Saiu correndo e voltou com um livro.
O ar de decepção foi geral.
Cada um foi para sua casa certo que teriam que se mudar do bairro.
O rapaz, certo que sua idéia funcionaria, esperou a volta do médico para ofertar o presente literário.
Alguns dias mais tarde, o rapaz foi até a clínica e pediu para falar com o doutor sobre um caso que ele tinha lido em um livro e que o doutor precisava imediatamente interná-lo.
Le Bon curioso recebeu o livro. Começou a folhear.
Depois de algumas lendo, sublinhou umas linhas no livro, levantou-se a mandou soltar a todos supostos loucos que estavam nas dependências da clínica.
Ele nunca mais internou ninguém e foi embora do país.
Curiosos então, os vizinhos encontraram o livro dado meses antes pelo rapaz ao médico.
E este trecho estava sublinhado no livro:
—Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos?
É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:—a modéstia.
Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato continuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.
—A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.
—Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas.
Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele em Itaguaí mas esta opinião fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao Padre Lopes. que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.
Trecho final de O Alienista de Machado de Assis

5 comentários:

  1. Adorei seu texto, principalmente por fechar com um trecho da obra do meu autor preferido - Machado de Assis.
    Beijos Tempestuosos!

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  2. Machado é sempre gênio, e "O Alienista" é dos seus melhores contos. Parabéns pela escolha!

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  3. Machado de Assis é um dos maiores.
    Parabéns pela escolha e postagem, reviver esse trecho de "O Alienista" foi impagável!!!!!! (olha só, eu escrevi reviver em vez de reler... Machado de Assis faz a gt viver o que ele escreve.)
    Valeu!!!!
    Márcia

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  4. Olá,
    que delicia de texto, um classico adorei sua participação.
    Boa semana!
    Boas energias
    Mari

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  5. Ola!
    Vim lhe dizer que a postagem já está lá.
    Gostei do seu texto estou participando da blogagem coletiva com o meu blog: Uma Interação de amigos, agradece a sua visita.
    http://sandrarandrade7.blogspot.com

    Este é um momento em que se aprende muito, um com o outro.
    Com carinho
    Sandra

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