O Pé

O Pé
Tudo que pisamos, nos apoia.

29 de jan de 2009

O SAPATO VELHO

Semana passada contratei o chapadão da rua para tirar os galhos do bouganville que cortei do jardim.
Galhos cheios de espinho.
Estou cheio de marcas. Inclusive na cabeça que não tem cabelo, logo os arranhões se tornaram inevitáveis.
O chapadão tem 3 filhos.
Um está na cadeia.
Brincava com meus filhos quando eram pequenos.
Os outros dois devem ter no máximo uns 7 anos.
A família mora na rua.
Cata papelão, trastes e outras coisas para sobreviver.
Não para comer.
Mas para beber e usar drogas.
Pelo menos a mãe compra para as crianças coisas para elas comerem e algumas pessoas da vizinhança os ajuda nesta parte.
Tinha um tênis velho que não usava mais, porém inteiro com solado em perfeitas condições, sem deixar entrar água nos dias de chuva.
Dei para ele usar.
Se rosto está marcado pelas quedas.
Quedas da vida e da bebida.
As feridas deformaram seu rosto.
As rugas se confundem com os cortes.
Os olhos e a razão não fitam mais nada.
Sempre perdido no vazio.
Vazio no coração.
Abismo da alma.
Ele era engenheiro, usava terno e gravata e tinha emprego e condições de sustentar a família.
Em algum momento, perdeu o emprego, a idade e a falta de disposição e acomodação o sugaram para esta vida.
O sistema o tratou como se realmente fosse um sapato velho que não tem mais utilidade e a gente deixa de lado.
Mas todo pé descalço precisa de um sapato.
Mesmo sendo velho.
E largado no fundo armário.
Paguei para ele carregar os galhos espinhentos para a lixeira da comunidade.
Ele passa os dias sentado na porta do bar.
De vez em quando, um companheiro de rua lhe dá um gole da marvada pinga.
E assim vão passando os seus dias.

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