O Pé

O Pé
Tudo que pisamos, nos apoia.

13 de out de 2008

QUANDO O GATO SAI, OS RATOS FAZEM AS FEZES.

Na madrugada de quinta para sexta, fui acordado pelos pits latindo.
Contrariado, levantei e fui ver o que estava acontecendo.
Eles latiam furiosamente nos fundos da casa, perto da piscina.
Estava escuro, não peguei lanterna ou acendi as luzes.
Vi os dois cães correndo em volta da piscina e latindo para dentro dela.
A piscina está vazia.
Na madrugada caia uma fina chuva. Mas nada de encharcar a roupa ou espantar os cães.
Cheguei perto da piscina e vi uma macha escura se movendo no fundo dela.
Max, o pitbull macho, não se conteve e  pulou para dentro dela e atacou a mancha que se movia.
Depois disto, chamei ele para ver se ele conseguia sair dentro da piscina, ou teria que tirá-lo de lá.
Ele se abaixou e pulou para fora com rapidez. A profundidade é de 1 metro e alguns centímetros que ele conseguiu suplantar com extrema facilidade.
Diante disto resolvi voltar para cama, pois não teria que me preocupar em tirá-lo de lá.
Se não tivesse cachorros que odeiam ratos teria que ter um gato.
Como já falei diversas vezes, quem mora em casa está sujeito a esta desgraça vinda do oriente nos porões dos navios das iguarias chinesas.
Quem tem gato, não pode deixá-lo sair de casa, pois os ratos se aproveitam da ausência para fazer o que não podem normalmente.
Domingo, acordei com aquela vontade de ficar em casa.
Não estava querendo assistir os serviços da minha igreja.
Mas o jovial e simpático pastor da minha igreja está viajando e talvez mandasse um vídeo para passar durante os serviços, para mostrar como estava acontecendo o trabalho evangelístico e missionário que estava participando.
Superei a vontade de ficar em casa, a dor lombar que tem incomodado nas ultimas semanas para ir.
Uma voz interior, vociferava dentro de mim para ficar.
Poderia descansar, repousar ficar deitado para aliviar o sofrimento físico da dor lombar.
Não teria que subir escadas, andar ou ouvir escalábrios se ficasse em casa.
Resolvi ir. 
Lembrei do apostolo Paulo e seu sofrimento atado a uma bola de ferro com um soldado romano ao lado.
Uma dorzinha lombar era bem menos.
Entretanto, fui descobrir que devia ter ficado em casa.
Por causa do dia das crianças, os lideres das crianças da igreja, resolveram fazer uma atividade na praça do bairro para atender a comunidade.
Dezenas de crianças participaram. 
Uma iniciativa muito boa e com resultado aparentemente bom.
Fui tirar uma fotos para colocar no site da igreja.
Num determinado momento, reuniram as crianças para ser contada uma história para elas.
Morte, pecado, eram as palavras proferidas para as incautas criancinhas.
Só faltaram as chamas do inferno e arder no lago de enxofre onde haverá pranto e ranger de dentes. 
Eu fiquei com medo.
Mas como alguns dizem que sou exagerado...
Resolvi voltar para os serviços da igreja, no templo.
Entrei no templo e fui para a cabine de som verificar se a transmissão online estava funcionando, quando ouvi as palavras fezes e cocô sendo proferidas pelo palestrante.
Parei para tentar entender o contexto e achar alguma razão.
Há uns 20 anos atrás, eu acho, lembro bem que fui a um retiro de jovens.
Trouxeram um palestrante importado de Goiás, e um dos líderes virou para mim e disse: você vai gostar dele, ele é polêmico.
Tornei-me naquele instante, um incauto assistente esperando as polêmicas que ele traria para nós.
No meio do seus relatos, o palestrante mencionou a passagem bíblica que Jesus conversava com uma prostituta.
O tal pastor polêmico, encostou-se no púlpito, e sarcasticamente falou ao microfone:
- E Jesus, falava com aquela puta...falava com uma puta...
Até aquele momento, não tinha presenciado um pastor ser tão baixo de um púlpito.
Apenas na vida privada, através de adultério e roubo.
Engraçado, que as únicas pessoas que ficaram indignadas como o discurso torpe e cheio de segundas intenções, foram os classificados como rebeldes e não crentes da igreja.
O melhor que 20 anos depois, os rebeldes estão ainda na igreja e os que se taxavam como espirituais e santos, não estão mais. 
Voltando aos dias atuais, o referido palestrante da manhã de domingo, anteriormente já tinha escorregado no liso chão do discurso religioso plantonista, como escrevi anteriormente em Por Um discurso Coerente ou em A Boa Fé Alheia.
Mas como todo bom ser humano, o erro não serve para consertar. 
Só serve para continuar no mesmo caminho.
Ao pedir novamente contribuições para a campanha missionária, passou um vídeo dos momentos mais sanguinários do filme Paixão de Cristo de Mel Gibson, com uma cantilena lamuriante, tentando convencer as pessoas a participarem.
O dantesco momento parecia interminável.
Ao final, o religioso ainda teve o descaramento juramentado de dizer que o vídeo estava fora de rotação. 
A primeira vez que vejo um arquivo estar fora de rotação.
Nem sabia que o pobre Windows Media Player 9 tinha este recurso de alterar a rotação.
A desculpa esfarrapada para o estranho momento, foi transferida do humano para o digital.
Fui para casa, almocei com meus filhos para tentar salvar o dia.
Comecei a assistir o jogo do Brasil, e aquela voz urrante novamente me aconselhava a ficar em casa.
Já tinha tomado um anti-inflamatório e analgésico.
Não acreditava que pudesse ser pior que a manhã, ainda mais que as criancinhas iriam cantar e nada como a descontração infantil.
Talvez um dos mais difíceis momentos para algumas pessoas é enfrentar uma platéia.
Falar ao microfone.
Para estar preparado para este momento, muitas pessoas sentem o friozinho na barriga, ficam enjoadas ou passam mal.
Ou passam dias numa intensa preparação psicológica para o momento.
É uma responsabilidade muito grande.
Um poder para o qual muitos não estão preparados.
Se vai falar, tem que saber como falar, o que falar. 
Na forma que todos possam entender.
Se você se torna um líder, que vai guiar todo uma audiência para um determinado fim ou compreensão, a preparação tem que ser muito maior.
Cada um tem uma percepção diferente de Deus.
Sente Sua presença de modo diferente e reage também de forma diferente.
Imagino que pessoas acharam o discurso  ouvido pela manhã maravavilhoso, que incluía fezes e cocô como parte integrante do entendimento da palavra de Deus.
Ou daquele pastor de 20 anos atrás que incluiu no seu discurso puta como cerne de sua palestra (estou usando as palavras usadas originalmente para não deixar o sentido perdido).
E preparar-se para subir em um púlpito e falar das grandezas de Deus, não pode ser uma simples experiência pessoal, e sim, algo que todos possam compartilhar de igual modo, sentir de uma maneira compreensível e que possa tornar todos um em um só corpo.
Não há como transportar para um momento coletivo, um choro único, uma emoção única ou um entendimento único.
Não consigo compreender as pessoas que todo vez que vão orar, choram.
Ou são extremamente fragilizadas ou suas emoções não podem ser contidas em um único momento.
Entender o papel do líder, não como participante, e sim como líder (redundante  e óbvio, porém fora da prática habitual)  para quem visivelmente não esta preparado, produz estranhos fatos.
A noite, teria uma missionária falando sobre as experiências de vida durante seu trabalho no campo.
Entretanto, o microfone traz para as pessoas um poder, uma momento terapêutico que transcende os alfarrábios psiquiátricos.
O que pode ser objetivo, torna-se interminável.
Orações que falam mais do pessoal do que o coletivo.
Impressões que refletem mais o pessoal que o coletivo.
Discursos que comovem mais internamente que externamente aqueles que presenciam.
Mas como sou exagerado...
Muitos podem ter se emocionado.
Chorado.
O que me impressiona cada vez mais é que quando o gato está presente, os ratos não fazem as fezes.
O comportamento segue os padrões e até atuam como lideres. 
Mesmo que os escorregões sejam menores.
Se você não pode fazer e falar algumas coisas na igreja, e que faz em casa, o seu discurso é bem incoerente e inconsistente.
Claro que todos nós temos nossas discrepâncias comportamentais e de idéias.
É normal.
Mas quando elas apresentam comportamentos dúbios e discursos incoerentes ou perda da noção do seu papel, a esquizofrenia religiosa está latente e influencia, mas que a verdadeira palavra que vem de Deus.
Eu não consigo imaginar Moisés falando com Deus e chorando.
E muito menos João Batista gritando no deserto raça de víboras chorando ou embargando a voz quando falava estas cosas.
E se imaginarmos Jesus usando a metáfora de sepulcros caiados, percebemos que ela é muito mais forte que fezes ou cocô que ouvi.
Ou a puta de 20 anos atrás.
Pelo menos no domingo, sobrou algum tempo para a missionária falar.
Várias pessoas compreenderam a mensagem.
Apesar das duas horas e meia dos serviços religiosos e pessoais, que alguns sentiram nos seus corações e impuseram aos incautos.
Alguns podem dizer que não podemos prender ou limitar o espírito de Deus na sua atuação.
Concordo plenamente.
Como também não podemos deixar de lado que devemos prestar um culto racional e agradável a Deus.
E que o meu umbigo não deve ser o umbigo do meu próximo.
O culto deve ser participativo, teocêntrico.
E não democrático e egocêntrico.
No final deixaram uma brecha para as crianças que não adormeceram esperando o momento de cantarem e encantarem.
Sei que muitos vão discordar sobre como e o que escrevi.
Ainda bem que somos diferentes.
Muito diferentes.
Prefiro continuar sendo exagerado na forma como vejo as coisas.
Tenho meus pitbulls em casa para acabar com os meus ratos.

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