O Pé

O Pé
Tudo que pisamos, nos apoia.

9 de out de 2008

O UNIFORME

Nos anos 80, os terninhos bem cortados, de cintura alta, tênis cano longo, mullets, etc eram o must da década.
Quase todos se vestiam igual.
Semelhantes.
As roupas se repetiam em combinações diferentes e coloridas.
Maquiagens pesadas.
Beirando ao grotesco.
Hoje em dia as pessoas tem uma preocupação muitas vezes exarcebada com a aparência.
Imagem é tudo.
Com o movimento punk no verão de 77, começaram a existir os punks de botique.
Se vestiam rasgados, mas customizados por alguma griffe que se aproveitou do movimento.
Hoje em dia, pobre usa jeans rasgado. 
Rico usa jeans customizado.
Para os lustradores de imagem, o aparentar é tudo.
Independente da situação, sua condição miserável de ser humano aparente, deve ser ofuscado pelo desejo sempre maior do possuir, ter e aparentar.
Outro dia, um conhecido ficou desesperado porque seu carro zero, que tinha sido lavado algumas horas antes estava se enchendo de poeira.
Estacionou num local onde estavam tirando entulho, e a poeira levantada estava indo direto para seu precioso carrinho.
O melhor da cena foi sua corrida até o carro para tirar do local. Como se fosse possível evitar a poeira de nossa cidade. A sujeira e a fuligem flutuante de nossas ruas.
Acabei percebendo com a cena, que o preocupado conhecido estava usando a mesma camisa que o tinha visto há uns dias atrás.
Naquele instante, fiquei achando que era só coincidência.
Dias mais tarde encontrei ele de novo.
Com a mesma camisa.
Fui olhar umas fotos e ele estava usando a camisa.
Fiquei pensando que mesquinharia.
Mas logo me veio a mente Fred Flinstone que tinha em seu guarda-roupa 30 roupas iguais.
É completamente normal alguém ter 30 roupas iguais.
Ele deve ser um saudosista dos desenhos de Hanna-Barbera.
Quer se sentir criança.
Quando era adolescente, este conhecido era diácono, em um certo dia no futebol ele desandou a falar palavrões, xingar as pessoas.
Cheguei perto dele e falei que sendo diácono, vice-presidente da igreja devia ter uma postura melhor que a minha.
E mesmo assim eu não falava as palavras que ele havia proferido na minha vida diária.
Passados tantos anos, vejo que o linguajar mudou, o carro mudou mas a distorção perceptiva continua sendo a mesma.
Agora de maneira diferente.
Um amigo, tinha uma Chevrolet Blazer.
Que presença.
Uma vez fui com ele no supermercado, e aproveitei comprei algumas coisinhas para levar para casa.
Já estava separado na época. Comprei iogurte, biscoitos, pão e algumas frutas.
Ele comprou aquele velho biscoito Globo (popularmente conhecido como biscoito de vento) e um creme vegetal para passar nele.
E me disse: eu e minha mulher estamos de dieta.
Sim. Dieta para poder pagar as prestações da Blazer.
Esta disparidade perceptiva do que seja importante, ou que seja prioritário afeta milhões de pessoas.
Através de dividas com cartões de crédito, cheque especial ou empréstimos consignados.
Adotei a prática de se tenho tenho dinheiro, posso comprar.
Se não tenho, não posso comprar.
Em meio a crise mundial, onde o pior não é a falta de dinheiro e sim de confiança, passar uma imagem de prosperidade e otimismo é tudo.
Mas acabamos sempre caindo no velho guarda-roupa do Fred.
Ele só aparenta ser uma pessoa supérflua ou só tem aquela roupa mesmo? 

Um comentário:

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