O Pé

O Pé
Tudo que pisamos, nos apoia.

22 de ago de 2008

A MORTE ENTERRA SÓ OS MORTOS pt 2

Minha mãe estava se recuperando de um AVC.
Balbuciava algumas palavras, movimentos lentos e entendimento do que acontecia ao seu redor era minimo.
Não contamos a ela que meu pai havia falecido.
Não faria diferença, e talvez só fizesse para pior se contássemos e ela compreendesse o que tinha acontecido.
Umas duas ou três semanas após a morte, fui surpreendido por uma advogada, amiga da minha mãe e pai de longas datas, chegou com uma procuração de plenos poderes que ela tinha passado para ela para resolver inventário, pensão, seguro de vida, as contas, tudo enfim.
A baixaria foi tão grande desta minha tia com esta advogada, já falecida, que ela usou o polegar da minha mãe para validar a procuração.
Eu e minha mulher ficamos estupefatos.
Em termos populares, poderia dizer que o corpo nem esfriou, e já tinha gente sapateando em cima do caixão para dividir os bens.
Não podia esperar coisa melhor de uma tia que gritou por telefone, pessoalmente, para quem quisesse ou não ouvir, que eu não poderia cuidar da minha mãe porque não tinha o mesmo sangue dela.
O meu primo que havia prestado contas no velório, por telefone foi logo me informando como seria a divisão de bens: eu ficaria com a casa que estava morando e o apartamento dos meus pais serviria para que minha fosse morar lá com esta gentil tia, que morava num minusculo kitinete.
Ela não poderia cuidar da minha mãe lá, por isso assim que possível mudaria para o apartamento.
Fui logo desmanchando os sonhos imobiliários. Informei que a casa que eu morava era minha e não do meu pai, logo não era um bem do inventário. Senti a o espanto decepcionado do outro lado da linha telefônica. Ele teria que passar as novas informações para a advogada e sua mãe.
Rapidamente, eu e minha mulher, fomos ao apartamento retirar todos os documentos que estivessem lá. Retiramos umas 5 caixas de papéis e também qualquer coisa que parecesse com ouro ou jóia.
Eles no dia seguinte iriam ao apartamento pegar algumas coisinhas para minha mãe.
Reviravam as coisas da minha mãe na busca de documentos, jóias e outras miudezas.
Novamente, o ar de decepção pairou no ar.
A advogada me cobrou os documentos para dar entrada na pensão.
Falei que ia providenciar.
Por mais que queiram convencer do contrário, contra fatos não há argumentos: esta advogada era filha de um dos fundadores da igreja que faço parte, o marido era diácono. Aliás, todos os envolvidos se confirmavam crentes. Se a palavra de Deus é a mesma ontem, hoje e sempre o que foi absorvido em seus corações contraria tudo que aprendi até hoje, através da leitura bíblica e dos ensinamentos que me minha mãe deixou.
Quantas vezes ouvi minha conversando com estas mesmas pessoas por telefone ou pessoalmente sobre a vontade de Deus, ensinamentos.
Quem está vivo, não freqüenta ou participa de nenhuma igreja, está distante para ouvir a voz divina.
E eu era a personificação do mal.
Numa determinada hora, quando o copo transbordou, disse para meu primo que se esta palhaçada não parasse eu ia interditar minha mãe e acabar com a festa deles. Para a advogada, disse que se ela não abrisse mão da absurda procuração iria denunciá-la na OAB.
Assim pude resolver tudo que meu pai havia deixado para minha mãe pensão, plano de saúde, etc.
Nunca mais tive contato com eles nos anos seguintes.
Tentei volta a fala com este meu primo, entretanto, muita coisa se perdeu ou se revelou neste episódio. Esta minha tia tentou contato, mas não quero falar com ela. Soube que seu marido faleceu há uns anos de efisema.
As senhoras da igreja sempre que podiam, visitavam minha mãe.
O um amigo, fisioterapeuta, acompanhou ela semanalmente até ela falecer. Este é um cara que respeito, além de ser muito honesto.
Teve um fonoaudiólogo, que largou o tratamento no meio. Este era diácono. Alegou que não poderia fazer nada mais. Engraçado que largou e nem veio conversar comigo. Vieram me contar o que ele havia dito.
Num sábado, foram lá a mesma advogada e a melhor amiga da minha mãe, amizade que vinha desde a juventude das duas.
Uma das amigas perguntou para ela, se ela estava precisando ou estava querendo alguma coisa. Minha mãe num lampejo de lucidez, disse: acho que tá chegando a minha hora, quero que o Senhor me leve.
Uma semana depois ela faleceu.

Um comentário:

  1. Meu caro "ex-irmão" e agora "primo" (por opção sua), foi por acaso que descobri seu "blog" e a curiosidade me fez ler algumas de suas crônicas, todas de alta nível. Só lamento o juizo que você faz de mim em "A Morte Enterra Só Os Mortos - Pt.2". Dizer que estive envolvido em qualquer movimento para lançar mão dos bens de seu pai e de sua mãe (que eu também considerava mãe por afinidade) é, no mínimo, uma maldade muito grande. Pensei que você me conhecesse, tendo em vista os muitos anos de convivência que tivemos. Só pra você saber, até hoje choro a perda de seu pai e de sua mãe, as pessoas que mais marcaram meu crescimento. Meu querido irmão (pois eu ainda o considero assim), não sou chegado a baixarias; não tive qualquer participação em artimanhas jurídicas, contratação de advogada etc. e, se levei alguns documentos para você no dia do velório de sua mãe foi apenas com a intenção de ajudar, o que, agora percebo, foi mal interpretado por você. É uma pena, pois essa situação prejudicou nossa relação. Se algum erro cometi, reconheço, foi o de me omitir, em respeito à minha mãe, sempre voluntariosa e nem sempre agindo da melhor maneira possível. Não quero remexer cinzas do passado, mas não podia deixar de esclarecer essas coisas, já que os valores morais que ambos recebemos não são compatíveis com a conduta que você atribuiu a mim. Um abraço.

    ResponderExcluir

Seu comentário é importante, mesmo que seja nada, ele pode ser tudo.